Carta Nº 01 · Culturas e crenças
Ceará,
3 min de leitura
Pra você ler com calma,
Ubuntu: ninguém se torna quem é sozinho
Sobre as pessoas que nos formam, a solidão e a beleza de ser visto.

Em zulu, uma das línguas faladas na África do Sul, existe um cumprimento chamado Sawubona, que significa “eu te vejo” ou “nós te vemos”. Uma das respostas possíveis é Ngikhona, que quer dizer “eu estou aqui”.
Gosto de pensar nessas duas expressões juntas. Existe uma beleza em reconhecer a presença de alguém e receber, em resposta, a afirmação de que aquela pessoa está ali.
É nessa relação entre o eu e o outro que encontramos a essência de uma filosofia do sul da África chamada Ubuntu:
“Eu sou porque nós somos.”
O Ubuntu parte da ideia de que nossa humanidade se constrói nas relações. Não nos tornamos quem somos inteiramente sozinhos. Aprendemos, crescemos e descobrimos o mundo através das pessoas com quem convivemos.
Nelson Mandela foi uma das figuras que ajudaram a tornar o Ubuntu conhecido mundialmente. Na África do Sul, marcada por décadas de apartheid, essa filosofia também ganhou importância nas reflexões sobre convivência, dignidade humana e reconciliação.
Mas não precisamos olhar apenas para grandes acontecimentos históricos para compreender o Ubuntu.
Pense em quem segurou sua bicicleta enquanto você aprendia a se equilibrar. Na pessoa que ficou acordada esperando você chegar em casa. Ou naquela professora que explicou a mesma coisa várias vezes, até você finalmente entender.
São gestos que parecem pequenos, mas que participam da nossa formação. Aprendemos a falar ouvindo outras vozes e, muitas vezes, a acreditar em nossas capacidades porque alguém acreditou primeiro.
E a nossa individualidade?
Existem experiências que ninguém pode viver por nós. Temos nossos próprios pensamentos, sentimentos e escolhas. Aprender a gostar da própria companhia também faz parte de crescer.
O Ubuntu não significa que precisamos estar sempre acompanhados. Nossa individualidade importa, e estar sozinho não significa estar incompleto.
Mesmo na solidão, carregamos um pouco das pessoas que passaram pela nossa vida. Na comida que aprendemos a preparar com nossa mãe, nas expressões que herdamos dos nossos avós ou na coragem que encontramos porque alguém, um dia, acreditou em nós.
Essas pessoas podem já não estar por perto, mas permanecem em pequenos gestos que se tornaram nossos.
Aprendemos a caminhar com as próprias pernas, mas alguém nos ajudou a dar os primeiros passos.
E é aqui que volto àquelas duas expressões zulus.
Sawubona. Eu te vejo.
Ngikhona. Eu estou aqui.
Não conhecíamos o mundo, não entendíamos o amor, nem imaginávamos quantas coisas ainda viveríamos. E, mesmo assim, já estávamos aqui. O sol aquecia nossa pele, o mundo seguia seu curso e tantas histórias aconteciam antes mesmo de conhecermos as pessoas que fariam parte da nossa.
Crescemos, aprendemos a expressar o que sentimos, a fazer nossas escolhas e a descobrir quem somos. Algumas pessoas nos acolheram, outras nos ensinaram pela ausência. Houve momentos em que nos sentimos amados e outros em que desejamos profundamente que alguém percebesse nossa presença.
E, mesmo nos dias em que nos sentimos invisíveis, nossa existência continuou fazendo parte do mundo. Nem sempre percebemos o quanto alcançamos outras pessoas, assim como nem sempre sabemos o quanto elas permanecem em nós.
Quando penso novamente em Sawubona, “eu te vejo”, já não penso apenas no olhar de alguém que está diante de nós. Penso também em todos os olhares que nos reconheceram ao longo da vida, inclusive naqueles momentos dos quais nem guardamos lembrança.
Antes mesmo de você aprender a enxergar quem era, já havia olhos que enxergavam você.
Para saber mais
- Livro: No Future Without Forgiveness, de Desmond Tutu. Uma reflexão sobre o perdão, a justiça e a reconciliação na África do Sul.
- Vídeo: Ubuntu — Eu sou porque pertenço. Um documentário sobre a filosofia Ubuntu e sua influência na vida de Nelson Mandela e na reconciliação da África do Sul após o apartheid.
- Vídeo: Ubuntu: eu sou porque nós somos, de André François, no TEDxSãoPaulo. Uma reflexão sobre o Ubuntu, as relações humanas e a importância de reconhecer nossa ligação com os outros.
1 comentário
Matheus
Muito muito massa!!!!!
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